Café: Operação Barter auxilia para uma gestão mais eficiente e traz segurança ao produtor

05/26/2020

Modelo de financiamento se destaca por facilitar as negociações, além de garantir crédito e liquidez 


A volatilidade da economia e a falta de previsibilidade durante a espera das safras têm impacto direto para o cafeicultor brasileiro. Tentar antever e amenizar os riscos são algumas das ações que fazem da Operação Barter uma alternativa e que ganha cada dia mais espaço entre os produtores rurais.

A Operação Barter nada mais é do que uma “troca”; um modelo bastante utilizado entre as empresas de insumos, equipamentos, máquinas e produtores. As transações no Brasil tiveram início na década de 90 diante de um cenário de escassez de linhas de crédito sendo a mais comum a triangulação da operação, que envolve: produtor rural, a empresa fornecedora dos insumos e uma trading ou agroindústria. A negociação tem início com a emissão de uma Cédula de Produtor Rural (CPR) pelo produtor em favor da empresa fornecedora dos insumos ou máquinas agrícolas, que por sua vez, transfere os seus produtos no momento presente.

Para o café brasileiro a safra 2020/21 poderá ser volumosa, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada - CEPEA-Esalq/USP, devendo somar pouco mais de 60 milhões de sacas. Ainda assim, a produção poderá ser inferior à safra 2018/19, que foi recorde (quase 62 milhões de sacas). 

Esse cenário atrelado ao maior volume de grão comercializado no encerramento de 2019 podem sustentar os valores do café nos primeiros meses de 2020. Grande parte desse volume estará atrelada ao Barter. 

Um dos motivos para a ascensão desta técnica é a relação de ganho que cobre toda a cadeia, atado a segurança, já que o produtor consegue pagar o que foi adquirido e realizar a trava dos insumos para a safra. Parceiro da Agritech, o sócio-proprietário da Unibarter - UGP Consultoria e Operações Estratégicas, Filipe Paiva, explica sobre as vantagens da Operação de Bater e o que esperar do mercado de commodities para 2020, um ano cheio de surpresas. Confira a entrevista:

Agritech em Ação – Como é realizada a Operação de Barter entre os produtores, a Agritech e a Unibater/Trading?

Filipe Paiva – A Operação de Barter é uma troca e, no caso da Agritech, a troca é entre a venda do equipamento e a entrega do café por parte do produtor. Normalmente, as indústrias como a Agritech utilizam as ferramentas de crédito disponíveis no mercado para financiar seus clientes, e o Barter já se destaca entre elas. 

De forma simples, nós pagamos pelo trator e o produtor cumpre o financiamento entregando em café no futuro, já com uma quantidade de sacas determinadas, garantindo a agilidade e confiabilidade do processo.

Agritech em Ação – Qual a maior vantagem para o cafeicultor?

Filipe Paiva – A maior vantagem é que, nesta modalidade de financiamento, o produtor consegue ter a visibilidade real do seu investimento, traduzido em sacas de café. Podemos dizer que, para os próximos três anos, ele saberá exatamente quantas sacas irá direcionar da sua produção para realizar o pagamento do trator.

A Operação Barter dá ao cafeicultor uma visão de longo prazo e permite um melhor planejamento. E o poder do Barter é justamente esse: possibilitar ter o controle de quantas sacas serão entregues para cumprir o financiamento. Por outro lado, todas as sacas produzidas, e que não estiverem atreladas ao investimento, seja para o trator, fertilizantes ou defensivos, tudo aquilo que não for intrínseco ao financiamento se torna parte da rentabilidade do produtor.

Agritech em Ação - Como a Operação Barter ajuda a prevenir as perdas?

Filipe Paiva – Os riscos são possibilidades que estão dentro dos critérios de financiamento. Nós não financiamos toda a produção. Apenas um percentual das sacas entra na operação para que tenhamos justamente uma margem de proteção para eventualidades. 

O Barter é justamente um fragmento da produção e traz maior segurança por direcionar parte da produção para os investimentos necessários, ao mesmo tempo em que mantém uma reserva.

Agritech em Ação – Como o produtor pode iniciar uma Operação Barter?

Filipe Paiva – A operação é muito simples rápida e prática. Temos uma lista com documentos que devem ser entregues para a aprovação do crédito. Após este trâmite, travamos e definimos a quantidade de sacas que o produtor deverá entregar para a aquisição do trator, e em quantas safras a entrega deverá ser feita. Essa é uma operação “ganha-ganha”. O produtor por fazer um financiamento atrelado à moeda dele, que é o café, a Unibater que financia e garante um café futuro adquirido, e a Agritech por vender seus produtos.

Agritech em Ação – Qual o cenário atual do café?

Filipe Paiva – Para traçar um panorama do café hoje é preciso entender que existem alguns componentes que formam o preço do café. O primeiro deles é a bolsa de Nova York. É lá que se centraliza a comercialização a nível mundial, principalmente, do café arábico. Outro componente importante do preço do grão é o câmbio. Por ser uma commoditie, é precificada em dólares e o câmbio se torna uma variável importante. E por trás da bolsa você tem compradores, vendedores, especuladores e todos esses movimentos de mercado que atuam de acordo com a macroeconomia mundial e o clima. 

Então, é preciso entender que o produtor não é o formador do preço do café. Ele é tomador do preço de café, pois o que está por trás da precificação são inúmeras variáveis que tornam extremamente difícil antever para onde o preço do café vai.

O foco das Operações Barter é garantir a segurança nessa realidade. Queremos que o produtor foque na produção e não em acertar o preço. É preciso que o cafeicultor mude a consciência, saia da gestão de esperança para a gestão da eficiência. E a eficiência é comprar sabendo quantas sacas eu deverei comprometer a mais, independente do preço do café.

Agritech em Ação – E qual o impacto financeiro para o café diante de uma crise mundial como o Coronavírus?

Filipe Paiva – Essa é mais uma situação em que o Barter pode promover tranquilidade. Se o produtor sabe quantas sacas terá que pagar por um trator ele precisa trabalhar para produzir mais, pois os efeitos do Coronavírus estão ligados diretamente ao preço do café, já que temos alterações nas bolsas em todo o mundo.